Referências

“Escrever poesia após Auschwitz é um ato bárbaro. E isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas.”

 

Theodore W. Adorno, Cultural Criticism and Society (1949)

Obras artísticas e performances nascidas em épocas de muita dor, como na Segunda Guerra Mundial ou a Guerra na Bósnia, influenciam a obra de JFBrittes. Suas pinturas falam de uma arte que surgiu como uma resposta a esta questão: Existe arte depois da barbárie? Sim. E talvez ela seja nossa maior cura para essas dores.

Uma breve história sobre Butô (舞踏)

O Butô nasceu do choque cultural produzido pela americanização da sociedade japonesa, pós Segunda Guerra Mundial. Tal choque trouxe à tona questões propositadamente ocultas por uma sociedade muito tradicional – morte, vida, loucura, homossexualidade.

Ankoku Butô ''Dança das Trevas'' (暗黒舞踏) foi a criação de um pequeno grupo de jovens performers japoneses dirigidos por Tatsumi Hijikata (土方巽) 1928-1986. Através de seus expoentes e criadores, o Butô, buscou nas vanguardas europeias, como no expressionismo, no cubismo e no surrealismo, e nas danças japonesas, como Nô e Bugaku, a inspiração para a criação de suas artes. Em 1959, eles chocaram o mundo com sua primeira apresentação: Kinjiki – “Forbidden Colors” (禁色) performance com temas homossexuais.

 

Mas seu reconhecimento mundial ocorreu algumas décadas depois, nos anos 1980, no Ocidente, através da sublime expressão de um de seus co-criadores: Kazuo Ohno (1906-2010).

Sobre Kazuo Ohno (大野一雄)

Para JFBrittes, Ohno é uma figura central de sua inspiração. Das performances “Just Visiting This Planet” (Peter Sempel, 1991) e de foto performances como no livro “Butterfly Dream” (Eiko Hosoe, 2006), surgiu sua série “Dança da Sombra e da Luz”, de 2019. De acordo com suas palavras:

​"Kazuo Ohno, além de grande influência, é um mestre para mim. Sua visão da arte é difícil de ser interpretada, ela é apenas sentida. Sobrevivente da II Guerra, sua dança contém algo que só consigo identificar de forma mais concreta pelo arquétipo representado pela carta de Tarô – 'O Louco'. Essa carta simboliza a sabedoria que existe na loucura – alguém que anda na linha tênue do 'Ouroboros', entre a infância e a velhice. O que me encanta na arte de Kazuo é o seu contato com a 'Criança Interior', enquanto representação das emoções mais fiéis das dores e dos êxtases da alma."

Descobrindo o Butô no Brasil, e no Mundo

Em contato com artistas contemporâneos, JFBrittes tem mantido o Butô como um pilar estético e filosófico do seu trabalho. Agora já difundida pelo mundo, a arte japonesa foi traduzida através da lente de várias culturas.

 

No Brasil, o Butô tem surgido em diversos grupos de novos performers por meio do conceito de “Terrorismo Poético”, de Hakim Bay.

 

JFBrittes teve um de seus primeiros contatos com o Butô ao assistir uma performance de Tadashi Endo: Ikiru (2010). Em 2015, no Parque Lage no Rio de Janeiro, Lu Brites produziu e atuou na performance pós-apocalíptica de Butô: “Pathospalidus”. Ambos os espetáculos serviram de inspiração para séries de pinturas.

 

Através de Marco Nektan, bailarino e coreógrafo de Belgrado, Sérvia, descobriu um Butô inspirado por dores de uma guerra mais recente. Por meio de contatos com artistas contemporâneos, a arte de JFBrittes eterniza performances de forte carga emocional e natureza fugaz, em óleo e carvão.